A intenção

Saudações,


Como alguém disse me disse uma vez:
"Nascemos sem pedirmos e morremos sem querer, como tal, há que aproveitar o intervalo."
E é precisamente nesse intervalo que devemos estabelecer um dos nossos maiores objectivos: partilhar a nossa história ao maior número de pessoas e quem sabe, com o nosso testemunho partimos conscientes de que não cairemos no esquecimento.
É a minha visão da vida que se vai clarificando pelas experiências que me definem.
Que Deus esteja com todos nós.

Peaceful Warrior
(Peaceful Heart, Warrior Spirit)









quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Caminho Santiago - Day 11

Santiago (25,7km)

Último dia da etapa.
Em Padrón, o albergue municipal foi o menos recomendável de todos desde o inicio de todos, chuveiros sem pressão e cozinha sem frigorífico. Mas, não faz mal, o importante é a jornada, a camaradagem, o espírito da partilha e olhando para trás, tudo tem piada na verdade. Parece que somos reduzidos à mais básica das sobrevivências, todos nós. É como se fossemos todos iguais e neste aspecto, ninguém é superior a ninguém.
Comecei o caminho sozinho, a meio da noite pois em Espanha amanhece mais tarde. Caminhei na escuridão sem medo, mas sempre que me sentia a vacilar, recitava o Salmo 23:4:

"Ainda que eu atravesse o vale da sombra da morte,
Não terei receio de nada,
Porque tu Senhor, estás comigo.
O teu bordão e o teu cajado dão-me confiança."

Parei perto das 8:30h para comer quando ainda faltavam 8km. Aí, uma senhora asiática meteu conversa comigo por causa da minha tatuagem do braço. A Yvonne, acabou por se tornar a minha companheira até ao fim. Descobri que nasceu em Taywan, tem 50 anos e juntamente com o marido tiveram um negocio de gelados durante 10 anos. Venderam-no e a Yvonne reformou-se, o marido por opção continua a trabalhar. Têm uma filha com 19 anos a viver na Alemanha e pensam comprar uma casa no Porto para ficarem mais próximo dela. 
Falámos de muita coisa, do Japão, da espiritualidade, reencarnação, relacionamentos amorosos e familiares. Na questão dos familiares, falei sobre a questão dos meus pais não me amarem e que é importante eu os perdoar. Ela ouviu com atenção e entendeu perfeitamente o que quis dizer e depois sugeriu que, ao invés do perdão, porque não jogar com as expectativas? Pedi para elaborar e ela comentou que a razão para o meu relacionamento não emocional com os meus pais é porque eu deposito as minhas expectativas em como eles deviam ser pais melhores. Pensei naquilo... Depois disse 
- "Os teus pais não te podem amar se nunca foram amados, por isso vive a tua própria vida e aprende a amar tu, para quando tiveres filhos tornares as vidas deles melhores do que a que tu tiveste, ao não cometeres com eles os mesmos "erros" que foram cometidos contigo. E talvez assim, as vidas deles possam ser 10% ou mesmo 20% melhores do que a tua foi, e os filhos deles talvez tenham mais 10% ou 20%. Já imaginaste como será a tua família quando chegarem aos 100%? E tudo isto parte de ti." 
Fez sentido...
Chegámos finalmente à Catedral e pedi à Yvonne para me tirar algumas fotos. Assim foi e depois nós dois em conjunto. Fomos buscar a Compostela e fui para o Albergue, nunca mais vi a Yvonne. Tomei um duche e saí para almoçar em direcção à Catedral, e naquele momento senti que havia algo dentro de mim que precisava sair e esse sentimento aumentava à medida que me aproximava da Catedral. Sentei-me por alguns momentos a observá-la e as lágrimas saíram. Lágrimas de alegria, raiva, frustração, realização,... O que vinha constantemente à cabeça era "Conseguiste. Parabéns, conseguiste."
No fim do almoço, fui à Catedral dar um abraço a Santiago. Agradeci o facto de me ter ajudado a chegar ao meu destino em segurança e sem mazelas, com fé, coragem e persistência. Pedi para até à próxima vez que nos encontrarmos, que me ajude a manter a fé, a coragem, a determinação, que esteja mais em paz comigo e ainda mais humilde.
Voltei ao albergue para uma sesta de 3h e depois fui jantar, voltei ao albergue novamente e descansei para um novo dia. Antes de adormecer contudo, veio a mim um sentimento de, melancolia talvez? Ou antes "Agora que fiz isto, o que faço agora?"

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Caminho Santiago - Day 10

Padrón (19km)

Hoje, arranquei de Caldas de Reis em força. Marquei o meu ritmo e parei para tomar café ao fim de 5k. Assim que me pus a caminho novamente, apenas parei no destino. Como o tempo estava convidativo não fiz a pausa dos 10k. Assim que cheguei, aguardei até duas horas até à abertura do albergue, entrei, tomei banho, fui almoçar e explorar um pouco a cidade. Voltei ao albergue algum tempo depois para dormir uma sesta e depois voltei a explorar a cidade. Fui a supermercado comprar o jantar e preparei-me para ir descansar, para a ultima etapa do percurso. A Tânia e a Rafaela acabaram por vir para o albergue municipal, ao invés do privado de Herbon. Eu e a Tânia acabámos por falar um pouco e sinto que as coisas ficaram mais equilibradas.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Caminho Santiago - Day 9

Caldas de Reis (22,7km)

Hoje iniciei o caminho  com o grupo do costume e desta vez veio connosco a Estefânia, com quem já nos tínhamos cruzado varias vezes. Ela é alemã, tem 31 anos e trabalha como Project Manager numa empresa de estudos de mercado. Senti o grupo estranho para comigo excepto a Rafaela e a Estefânia, Acelerei passo e parei num café para tomar o pequeno almoço. Entretanto chegam as meninas e após ter sido atendido, a Eduarda vem sentar-se à minha mesa e o resto da malta seguiu-se. conversámos numa boa e correu tudo bem, parece que às vezes apenas é preciso dar tempo às pessoas para que elas organizem as suas cabeças e "voltem ao mundo". É importante não personalizar constantemente as coisas e pensar que tem tudo a haver comigo.
A Eduarda contou uma historia do Caminho Francês, onde um rapaz começou o Caminho desde a Dinamarca e encontrou a sua cara-metade que era da Holanda. Ambos alteraram os seus planos iniciais após chegarem a Santiago e abriram um albergue para peregrinos. Uma história de amor do Caminho.
Anyway, a Estefânia tinha reservado um albergue privado para nós. Apesar de ter apreciado a iniciativa, não gostei de não ter sido consultado. De qualquer das formas cheguei, tomei banho e fui almoçar com a Rafaela. Para o jantar comprei hambúrgueres de frango, 500g de massa, 6 ovos, margarina e um pacote de bolachas por 5€, ou seja, tinha jantar e pequeno almoço por menos de metade do valor do que se fosse jantar fora. Depois da janta, fui ter com as meninas e o John (um irlandês) a um bar perto do albergue beber uma cerveja e depois, viemos embora. Elas tinham combinado ir para Herbón, a localidade antes de Padrón e eu aproveitei a oportunidade para seguir o meu caminho sozinho. 

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Caminho Santiago - Day 8

Pontevedra (12km)

Hoje, o dia foi curto. Fiz apenas 12km até ao albergue municipal. Arrancámos juntos novamente mas após 1km parámos para tomar café. Quando acabei, senti que deveria arrancar sozinho e assim o fiz. Encontrámos-nos novamente já perto do albergue e senti-me feliz por ter feito esta etapa sozinho. Talvez faça o mesmo amanhã.
Curioso que este grupo não se juntou por obra do acaso. Todos nós tivemos dificuldades na infância, especialmente com um ou ambos os nossos pais. É incrível como o Universo junta as pessoas baseado naquilo que mais intimamente as liga, é mais um comprovativo de que nada é por acaso e que tudo tem uma razão para acontecer. Talvez nos tenhamos juntado por alguma razão que ainda está para me chegar. Quiçá perceba isso durante o Caminho.
Fomos almoçar juntos e explorar Pontevedra que é uma cidade muito bonita repleta de monumentos muito antigos.

domingo, 25 de agosto de 2019

Caminho Santiago - Day 7

Soutexuste (20km)

Hoje saímos cedo de Porriño. Fui mais consciente das limitações da minha perna por isso fui a um ritmo mais calmo, contudo, começou a doer novamente. Tentei compensar com a perna esquerda e acabei por ter uma inflamação bastante debilitante no músculo tibial. Parece que Deus está a por a prova a minha determinação, e penso que Ele não me vai deixar chegar ao fim com a maior das facilidades... Também, o que poderia fazer agora? Abandonar tudo a pouco mais de 80km do fim? Desistir? NEM PENSAR!!! Simplesmente não é uma opção... Terei simplesmente de continuar até chegar ao fim, custe o que custar!
Acabámos por dormir num albergue privado em Soutexuste. O dono Miguel, aparentemente um jovem com pouco mais de 35-40 anos, presta-nos o serviço mais incrível de sempre: Primeiro levou a mala para o quarto de toda a gente, depois disse para nos servirmos do que quisermos e pagar no final. "Faz de conta que esta é a tua casa.", dizia repetidamente. Sentia-se claramente que o serviço era de longe mais importante para ele do que o dinheiro entendes?
Eu, a Eduarda, a Rafaela e a Tânia continuamos juntos. Honestamente, creio que dentro em breve terei que me separar, pois sinto que isto já não está a ser uma viagem pessoal. Sinto que encontrei um grupo, colei-me (ou colámos-nos ☺) e agora tomamos decisões em conjunto. Não foi propriamente para isto que vim... Apesar de haver momentos no caminho em que viajo sozinho, o facto de saber que irei encontrar o grupo outra vez, não me deixa muito confortável. É suposto a viagem ser uma descoberta onde as pessoas passam por nós. No strings attached durante a viagem, sem compromissos. Claro que após isso as relações podem colar mas no momento, se me apetecer ir jantar com o grupo vou, se me apetecer ir sozinho vou. Há que aprender a ser fiel comigo mesmo e com o que sinto, sem pensar no que os outros vão achar da minha decisão, e por vezes isto nem sempre é fácil. Somos seres sociais e queremos estar com pessoas, mas isso nunca deve sobrepor-se ao que sentimos que é o certo a fazer naquele momento.

sábado, 24 de agosto de 2019

Caminho Santiago - Day 6

Porriño (17km)

Hoje foi um dia complicado. Descansei bem, levantei-me cedo e pus-me a caminho ainda a meio da noite, apanhando a Tânia e a Rafaela. A perna mal me doía e por isso decidi seguir o passo delas, o que se revelou um erro. Quantas são as vezes em que preciso aprender esta lição na vida: Se quero seguir alguém óptimo, no entanto é importante ir no meu próprio passo pois na vida em geral, todos temos ritmos diferentes.
Quando chegámos a Porriño, a Eduarda estava connosco e fui tomar o pequeno almoço com ela, e juntou-se a nós o Sohei, um japonês que veio do Japão para fazer o Caminho. Fiquei a saber que trabalhou numa empresa onde, apesar do contrato dizer especificamente que a hora de entrada é às 10h, ele era chantageado a entrar duas horas mais cedo e a sair às 22h-23h da noite (momento em que vão beber copos com o patrão) sob pena de ser despedido. A viver sempre de noite, adoeceu passado um ano e despediu-se. Meu Deus, isto é desumano. E quando penso que estou mal... Algo semelhante aconteceu com a Eduarda. Aparte dos afazeres diários ainda tinha que responder no próprio dia, a 50% dos 150 emails que recebia. Claro, também não demorou muito a fazer algo por ela...
Quanto à Tânia, depois dos banhos fomos todos almoçar. Confessou que teve uma operação na qual retiraram 40-50cm do intestino delgado, devido ao facto dele ter dado um nó que originou cancro. Esteve 2 meses em recuperação fora o tempo no hospital, mas saiu por cima. Nada mau para quem esteve às portas da morte e hoje está feliz com a vida. Podia ter-se tornado uma vitima...Sente-se mesmo que é de facto uma mulher forte, independente e determinada.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Caminho Santiago - Day 5

Tui (19km)

Mais uma noite bem dormida. Com os comprimidos Voltaren senti que a perna melhorou imenso.
Preparei a mochila e pus-me a caminho para Tui. Os primeiros km correram bem, depois vieram novamente as dores e agora cada vez que vêm, parece que é com mais força. Cheguei a Valença do Minho e aproveitei para tomar o pequeno-almoço e descansar a perna por uns momentos, e depois voltei a por-me a caminho direito às muralhas da cidade. Existe tanta vida no interior que é incrível, e não consegui desfrutar plenamente devido às dores, pois só me apetecia chegar ao destino rapidamente para descansar. A beleza contudo era indescritível...
Anyway, passei a ponte de Valença para Tui e fui para o albergue. Ao chegar, encontrei a Tânia e a Rafaela à espera. Tomei banho e fomos os três dar um passeio por Tui. Sentámos num café, relaxámos, conversámos, ligámos... 
Descobri que ambas vieram de Angola para Portugal na altura dos refugiados e que neste momento estão ambas em Londres a trabalhar. Uma coisa interessante é que a Tânia também escreve num diário, ela diz que a ajuda a cooperar com determinadas situações complicadas na vida que ela não quer contar a ninguém. Também escreve poemas e outras coisas que a impressionam, mas o mais importante é que ela revelou que as entradas que tem no seu diário de há uns anos atrás, revelam uma pessoa diferente da de hoje, para melhor. Em 12 anos que que comecei o hábito do diário que nunca tinha conhecido ninguém que usasse um (excepto os amigos que tivemos uma experiência em comum) e ainda para mais com resultados tão interessantes... Fico contente por saber que continua a funcionar na vida dos outros.
Antes de irmos jantar, um senhor de idade abordou-nos à entrada do albergue e quis ir oferecer-nos um refresco. Lá fomos e descobri-mos que o Sr. Vicente é espanhol e fala 6 línguas, é reformado da Marinha Mercante, que viaja pelo mundo, tem um barco, e uma auto-caravana onde reboca uma mota. Viveu 3 anos em Nova Iorque e descobrimos que a razão pela qual nos fez o convite, era porque era o seu 79º aniversario. Há uns anos atrás teve cancro na próstata, vence-o e desde aí que mudou o seu estilo de vida. Deixou de comer carne, queijo, enchidos, fumar e beber álcool. 
Demonstrou ser uma pessoa bastante alegre e divertida e fico feliz por saber que nunca é tarde para mudarmos os nossos hábitos para melhor.
Anyway, fomos jantar todos juntos e a nós veio ter a Eva, que é uma International Business Developer numa empresa de equipamentos médicos. Uma pessoa bem humorada, de uma doçura incrível e maturidade impressionantes. A Rafaela foi embora descansar e nós ficámos os três a falar pelo menos 2h. Embora não aparente, a Rafaela tem uma historia de vida problemática e ficámos parte do tempo a falar disso. Aparte da historia dela senti-me muito bem ao conversar com estas duas mulheres adultas e maduras, rimos, brincámos, foi incrível. Não me lembro da última vez que tive um debate acerca de life issues com mulheres.
Existe algo que me tem acompanhado desde o 1º dia do Caminho e isso é o refrão da música "Last Ride of the Day" dos Nightwish:
"Once upon a night, we´ll wake to the Carnival of life.
The beauty of this ride ahead, such an incredible high.
It´s hard do light a candle, easy to curse the dark instead
This moment, the story of humanity,
The last ride of the day 
The last ride of the day."
Sinto que se aplica a este momento que vivo na minha vida. Tal como diz a 1ª linha do refrão: "Numa qualquer noite, iremos acordar para o Carnaval da vida", ou seja, para a diversão da vida, para viver. Sinto que foi o que aconteceu comigo, deixei o conforto da minha vida e decidi ir viver. 
A 2ª linha indica "A beleza da jornada que se avizinha é de uma emoção incrivel". Sinto que isto significa que o futuro é promissor e que vai valer a pena. 
Depois diz que "É difícil acender uma vela e é mais fácil amaldiçoar a escuridão." Interpreto isto como sendo de facto difícil tomar consciência de que é preciso ser eu a mudar, e que é mais fácil olhar para fora e criticar. 
De seguida diz que "Este momento é significativo na história da humanidade". Concordo, a humanidade é composta por cada individuo que quando tomar consciência de que vai e tem que mudar, a humanidade muda por completo.
Para concluir, diz que "É a ultima jornada do dia" em duplicado. Sinto que no fim do dia, contas feitas, tenho que ser eu a tomar consciência das minhas atitudes e reacções por forma a estar em paz comigo e com o mundo.
Quando isso acontecer, a partir daqui a viajem começa a valer a pena.